Trash, de Andy Mulligan.

“O que foi que eu aprendi no lixão de Behala, e como isso me transformou?

Aprendi mais do que seria possível aprender em qualquer faculdade. Aprendi que o mundo gira em torno de dinheiro. Há valores, virtudes e morais; há relacionamentos, confiança e amor e tudo isso importa. No entanto, o dinheiro é mais importante, e pinga o tempo todo, como se fosse água. Alguns bebem muito dessa água; outros passam sede. Sem dinheiro, você encolhe e morre. A falta de dinheiro cria um deserto onde nada cresce. Ninguém sabe o valor da água até morar em um lugar árido e seco – Como Behala. Tantas pessoas moram lá, esperando a chuva chegar”.

 Trash entra na lista de “assisti antes de ler”. Quando o filme estreou no Brasil, lembro de ter ficado bem animada para assistir e acabei indo com a minha irmã. A sessão que fui era a única que tinha na cidade e na menor sala do cinema, que não lotou no horário que fomos. O filme todo me encantou pela realidade, crua, feia, cruel e ao mesmo tempo encantadora pelos três principais personagens carismáticos. Saí da sala do cinema animada e quando cheguei em casa para uma pesquisa básica, descobri que foi adaptação de um livro e foi o suficiente para eu ir em algum site online e comprar.

Como todos os livros que entoco na estante, demorei para começar a ler. Vocês já tiveram o dia “saco cheio de ler mais de 300 páginas”? Então, eu tenho constantemente, principalmente quando acabo lendo séries que sugam boa parte da minha energia e eu acabo pegando os livros mais finos que tenho para ler. Nesse dia eu comecei com Trash e, numa única tarde, esse livro me fez ficar tão encantada quanto fiquei pelo filme.

E essa resenha terá, sim, algumas comparações sobre ambos.

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Trash conta a história de Raphael, um menino do lixão que, num dia qualquer, acha uma carteira de couro entre o lixo e lá encontra o que mudará a sua vida. Algumas notas de dinheiro, um cartão com alguns códigos que não compreende e uma chave. Sente-se sortudo por ter achado algo além de barro entre as sacolas que os grandes carros de lixo despejam do alto do morro, com a pequena quantia pode comprar algo para sua tia cozinhar e até dividir o valor com seu melhor amigo, Gardo. Mas Raphael é um jovem curioso e sabe que, para toda chave, há uma porta.

Após achar a carteira, a própria Behala parece estar agitada e antecipando um grande acontecimento. A chegada dos policiais, além de preocupar, parece contribuir ainda mais para o mistério da chave. Gardo, amigo e protetor, tenta fazer Raphael entregar a carteira a polícia, mas o menor se nega, querendo saber onde aquele segredo os levariam. Decidem buscar ajuda de Rato, um dos muitos órfãos do lixão que literalmente mora com ratos no esgoto. Ele sabe onde ir, como guia-los entre as estações de metrô e como subornar pessoas perigosas para sair do caminho do trio.

Mas mal sabem eles a que fim chegarão.

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Adoraria falar sobre muitas cenas, mas me contentarei em não soltar spoilers. Mesmo tendo visto o filme, o livro me surpreendeu bastante com o toque de cada personagem nos diversos capítulos que esse pequeno livro tem. A história é dividida em cinco incríveis partes que te faz devorar o livro pelas situações em que os três acabam tendo que enfrentar. Eles escrevem o livro para você, narrando o envolvimento deles em toda trama e proporcionando ao leitor que possa ver a história de cinco importantes pontos. Na verdade chegam a ser seis, mas só pelo final e é tão breve quando a participação de tal personagem.

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 Raphael foi o personagem que mais me encantou. Em entrevistas, Andy Mulligan, o autor, diz ter conhecido um menino em Calcutá que o inspirou a escrever Trash em apenas 12 dias. Ele tem uma personalidade um tanto inocente para realidade em que vive, e esse é seu brilho: conseguir manter a inocência que muitos perdem perante a tal condição que ele se encontra. Não é à toa que Gardo sempre está ao seu lado, protegendo-o. A amizade dos dois é algo lindo, forte e que se resume a respeito e companheirismo. Sempre juntos, como irmãos, confiam a vida um ao outro e que, nesses problemas que eles se envolvem, foi a prova de que ambos são inseparáveis. Quando lia todos descrevendo o brilhante de sorriso de Raphael, eu tentava imaginar e vinha a imagem do ator que o interpretou no filme e isso também me fazia sorrir do nada. É, qualquer um está sujeito a tentar ser extremamente protetor com esse pequeno menino curioso.

Já Gardo me encantou pela força. Ele sempre está preocupado com Raphael, fazendo possível para estar com amigo e quase partiu meu coração a cena em que a polícia leva o menor para longe dele. Na verdade tudo a partir dessa cena piora e eu me vi querendo chorar, com raiva e repúdio. Quando Raphael, Gardo está lá para acordá-lo de seus pesadelos e acalmá-lo. Ele só está lá, como se sua vida só tivesse sentindo em ter o amigo perto e… Tem prova de amizade mais linda que essa? Raphael estava em boas mãos.

Rato, ou Jun-Jun, é um personagem peculiar. Ele simplesmente atrai proteção. Foi um pouco difícil construir tudo que o personagem é, já que Rato é analfabeto e sua parte da história é narrado por outros personagens que escrevem por ele. Sendo órfão e vivendo isolado de todos, mal vai a escola comunitária. As vezes surge por lá, onde é alimentado pela carinhosa Olivia ou convidado a tomar um banho pelo padre Juilliard. Rato é inteligente, rápido, se move como uma sombra que poucos notam e, ao ajudar Raphael e Gardo, acaba formando o trio que torna toda essa história acessível para crianças, já que a história é um suposto YA. Eles conseguem deixar a dura realidade palpável para o leitor mais jovem, mostrando a força da real amizade e de que é necessário força para ter aquilo que quer.

Além do trio incrível, há Olivia e o Padre Juilliard, personagens que contam tudo pelo ponto de vista mais real. Olivia é uma voluntária que dá aulas nas escolas de Behala, que um dia fora apenas uma turista pela cidade e acabou se encantando pelas crianças e pelos seus sorrisos. Ela ama Jun-Jun, teria adotado se fosse possível, mas com sua participação em toda aventura dos meninos, ela acaba sendo obrigada a voltar para seu país de origem e terminar sua participação no livro justamente no trecho que citei no início da resenha. Já Juilliard faz seu serviço por gostar. Já teria terminado sua missão, mas sabia que a situação estava além de substituí-lo e seus capítulos são curtos, com poucos detalhes sobre o enredo em si, e mais detalhista quanto a corrupção e todos os males que rondam aquela parte da cidade.

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Li inúmeras reviews que criticavam o livro por não ser exatamente um livro correto para criança, pois mostrava coisas que estavam além de sua compreensão. De fato, tem, mas há boas mensagens a serem passadas para os pequenos pré-adolescentes. A amizade e gratidão. Sejam felizes com o que possuem e agradeçam a quem você crê toda noite pelo teto que existe acima de sua cabeça. Mas é altamente recomendado para adultos também, já que para mim, exceto pelo que citei acima, o livro se resume a tratar a corrupção e todos as consequências a partir dela.

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O autor teve a ideia brilhante de contar o que viu em suas inúmeras viagens a diversos países de terceiro Mundo, inclusive o Brasil, e teceu esse enredo com o propósito de mostrar o que aflora e impregna a sociedade a partir de pequenos e grandes desvios de conduta. A escrita é simples, leve e fácil de acompanhar, mas com um plano de fundo muito… Sério. O autor fala de abuso de poder por parte de policiais corruptos, descreve grandes desvios de dinheiro que deviam propiciar a sociedade boas condições de vida e mostra a miséria em sua forma crua. Basicamente ele uniu a corrupção do Brasil, o lixão de Manila e a miséria em diversos locais da Índia em que lecionou para pequenas crianças.

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Eu indico que vocês assistam o filme o mais rápido que puder. Eu ri muito no final do filme, quando eles citam as licitações compradas por grandes empresas que estão na mídia (nem preciso falar quais). Há também os protestos que tanto acompanhamos nos últimos anos, apesar dessa parte ser mais presente no livro com algumas colagens de reportagens de jornais (como na imagem acima). Basicamente o livro foi a forma mais agradável de ler todo um jornal ou de ver pequenos relatos na TV (que são bem seletivos para não irritar a quem sustenta toda essa mídia).

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Leiam e amem esse livro tanto quanto eu. Eu poderia falar mais, claro, mas ficarei na expectativa de que alguém voltará aqui um dia e comentará para que possamos discutir sobre ele. Recomendo com todo meu coração, são somente 213 páginas que, apesar do pequeno número, não diminui o fato de que essa história é maravilhosa.

 Assistam e leiam.

 Até a próxima!

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