A Menina de Vidro, de Jodi Picoult.

“Você era Willow, pura e simplesmente. Não havia ninguém no mundo como você. Eu soube no primeiro momento em que a peguei no colo, toda enrolada em espuma para que você não se machucasse em meus braços: sua alma era mais forte que seu corpo e, apesar do que os médicos me repetiram mais de uma vez, sempre acreditei que esse era o motivo das suas fraturas. Que esqueleto ordinário aguentaria um coração do tamanho do mundo?”.

A Menina de Vidro é o segundo livro que leio da autora Jodi Picoult, com a mesma escrita incrível, com o enredo envolvente e personagens “pessoas como nós”. Poderia encher essa análise com elogios voltados ao incrível talento que essa mulher tem com as palavras, de como ela consegue tocar e quebrar seu coração com cenas lindas e emocionantes. Este livro me lembrou muito A Guardiã da Minha Irmã (que pretendo fazer uma resenha num futuro próximo), onde todo drama familiar é voltado a filha que possui uma doença que pode lhe custar a vida e suga todas as forças que uma família deve ter em todos os momentos que houver uma queda ou uma recaída.
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Em a Menina de Vidro, Willow é diagnosticada desde os 6 meses de gravidez de sua mãe com Osteogênese Imperfeita, também conhecido como “ossos de vidro”, nascendo assim com mais de sete ossos rompidos. Seu nascimento é só o começo das dificuldades que Charlotte, sua mãe, Sean, seu pai e Amelia, sua irmã, irão passar. A história em si começa quando a família decide por fim visitar a Disney por um final de semana, para oferecer a Willow e Amelia algo que toda criança deseja: diversão. Até que Willow escorrega num simples guardanapo em uma sorveteria e quebra um osso. A confusão a partir deste incidente os levam a um hospital, onde, de algum modo, eles são separados pelos médicos e Sean acaba na prisão junto a sua esposa, e Amelia é enviada a um lar de adoção. E tudo por que esqueceram uma carta que os deixa livre de prisão quando acontecem incidentes em lugares longe dos hospitais que são acostumados a ir, pois OI é uma doença rara, o que pode ser facilmente confundida com agressão física se não tiver o atestado do médico que cuida da criança.

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Com um retorno conturbado para casa e férias que não saíram como planejado, eles voltam a vida da qual estavam acostumados e com um Sean humilhado. Como pode um policial ser preso? Acaba indo ao seu advogado, desejando apenas processar alguém por toda confusão e humilhação que passaram, mas seus pontos não são suficientes o bastante para isso. Os seguranças, médicos e policiais só estavam fazendo o trabalho deles. Mas acabam saindo de lá com um possível processo: erro médico. E a partir desse momento, a história toma o molde de um suspense médico-legal e com o drama familiar agravando a cada capítulo, que é contado pelo ponto de cinco personagens.

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A principal narradora é a mãe, Charlotte, uma confeiteira que precisou largar seu emprego para cuidar de sua filha frágil. No momento que ela passou a questionar se poderia ir em frente e abrir o processo sobre erro médico, eu pensei as coisas mais sujas sobre ela. Na verdade, não tenho certeza se até agora, dias depois de ter terminado o livro, eu gosto dela. Nascimento indevido? Teria optado por um aborto que colocaria até sua vida em jogo? E que em determinado momento da história, em uma lembrança, tem dúvida se vai amar sua filha por ela ser “imperfeita”? Ao decorrer da história eu ficava cada vez mais indignada com ela, mas quem sou eu para questionar uma mãe tendo uma vida como essa. Ela a ama tanto que desejaria ter tido a escolha de a ter abortado para privá-la da dor? Bem, é isso. Mas Charlotte queria ter a oportunidade de uma escolha onde acreditou ter sido tirado de si a partir do momento que sua melhor amiga e obstetra, Piper, não diagnosticou a doença de seu bebê nas primeiras semanas de gravidez. Então ela decide sim processar Piper, e, as poucas paredes que permaneciam em pé, passaram a ruir.

Perde sua amiga. Não vê os problemas que sua outra filha Amelia, já adolescente, passa. E passa por aquele momento obscuro e a que se resume a história: problemas com seu casamento. Nesse ambiente denso e cheios de surpresa a cada dia, é uma mãe batalhando por uma ideia que não pode agradar todos, onde todos a julgam por querer dinheiro, por ser uma mulher que de algum modo representa uma das principais dificuldades que deficientes precisam enfrentar. No fundo ela só quer poder culpar alguém pelo sofrimento da filha e poder, com o dinheiro do processo, oferecer uma vida boa a sua filha que precisa de cuidados constantes da qual seu seguro ou plano de saúde não cobre.

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Esse é o momento que olho para o tamanho que a resenha está tomando e vejo que, apesar de longa, eu não consegui explicar nem 20% do que a história é. São temas difíceis, complexo demais, e é tecido com tanta maestria pela autora que, em outras mãos teria mais de mil páginas, mas na dela teve 529.

Temas como bulimia e self-harm de sua filha Amelia, adolescente que, apesar de todo dramas que os jovens passam em sua idade, ainda tem que enfrentar um coração partido e observar de longe sua mãe aos poucos definhando o fino tecido que mantinha o equilíbrio em sua casa. Sean, cuidadoso, carinhoso e que moveria mundos para proteger suas filhas, questionando sobre seus sentimentos sobre sua esposa e entrando com as papeladas do divórcio. Piper tendo uma crise quase existencial, deixando seu trabalho de lado a partir do momento que é processada e que arruma uma alternativa para fixar seus pensamentos e mãos. Marin, a advogada, que ao longo do caso está em busca de sua mãe biológica e que a encontra de um modo inesperado.

E Willow, a pequena menina de seis anos que apesar de aparentar ter três, possui uma mente brilhante e bastante desenvolvida o suficiente para ter mais de dez anos. Ela não sai impune de todo o drama. Como ela poderia? Ela é a mais frágil, com mais de 52 ossos quebrados ao longo da vida, com uma mãe que não possui mais o brilho de antes, com um pai distante de casa e uma irmã que, um dia, ao entrar no banheiro, se depara com ela cortando o braço com uma fina lâmina e aparentando estar feliz com isso.

Todos narradores contam a história para Willow, ela tendo um pequeno capítulo no final que me decepcionou. O caso teve a mesma reviravolta de A Guardiã da Minha Irmã e… Não fiquei feliz. Não que eu castigue toda a obra por isso, mas como disse, uma obra. O final foi um pouco cruel com o leitor, mas depois de ter lido todo o drama da família, você se pergunta se o final chegou a ser justo. “Que, dessa vez, não fui eu quem se quebrou”? Não consegui conter as lágrimas e quase joguei o livro para longe de mim. Não tinha reagido a um final tão inesperado desde que li O Pacifista, do John Boyne, da qual passei horas me perguntando indignada e me perguntando “por que?”, olhando para o livro como se algum modo fosse surgir um esclarecimento para me acalmar.

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Deixarei de indicar? Não. Queria que todos tivessem a oportunidade para ler Jodi Picoult um dia, pois é uma autora que estuda o que escreve, que escreve muito em pouco, que te faz chorar, sorrir (ou se indignar um pouco como no meu caso). Por mais que pareça impossível nivelar tudo que eu falei, ela consegue.

Leiam se emocionem tanto quanto eu.

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